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A cada ano, 12,7 milhões de plástico encontra o seu caminho em direcção aos oceanos, com alguns milhões ficando presos no gelo ártico e outros acolhidos nos estômagos de animais marinhos enredados no pescoço de aves, golfinhos e tartarugas. Como resposta, muitas marcas de roupa estão a aproveitar esta oportunidade para incorporar fios regenerados nas suas colecções. Será uma medida mais sustentável para o planeta? Tecnologia e moda uniram-se para produzir os fios Bionic e Econyl, feitos a partir de plástico descartado nos oceanos. Desde garrafas de água a embalagens de takeaway e até redes de pesca antigas, parece que a moda tem integrado o reaproveitamento do plástico na sua agenda. Este plástico está a ser reciclado em fios utilizáveis para a criação de peças como sapatilhas, roupa desportiva, lingerie e até vestidos.


Esses fios são cada vez mais usados por marcas locais e globais para criar todos os tipos de produtos têxteis. Esta integração não só remove o plástico dos oceanos e o reutiliza, como também contribui para melhorar as comunidades locais. Há dois anos, doze toneladas de redes de pesca abandonadas foram recolhidas na região Basca e transformadas em fio Econyl; este ainda está a ser usado atualmente, integrando a coleção de outono-inverno 2018 da marca de vestuário Ternua.


No entanto, existem problemas ao reutilizar plástico em vestuário. Quando qualquer roupa sintética é lavada, pequenas fibras de plástico podem ser libertadas dos tecidos, e estes microplásticos podem infiltrar-se nos sistemas de água. Segundo Mark Anthony Browne na revista Environmental Science & Technology, uma única peça de vestuário sintético pode libertar quase 2.000 microfibras por lavagem. Em julho de 2018, no Reino Unido, esses microplásticos—comparáveis aos grânulos usados em cosmética—serão proibidos para venda devido à ameaça que representam para a vida marinha, pois entram nas cadeias alimentares e causam sérios danos à vida aquática. Ao mesmo tempo, as dimensões microscópicas destes plásticos significam que eles nem sempre podem ser filtrados pelos sistemas de esgotos, revelando-se uma preocupação ambiental séria.


Atualmente, o uso de materiais sintéticos na moda é inevitável e continuará a ser utilizado para criar moda descartável no futuro próximo. O tecido sintético mais comum é o polietileno tereftalato (poliéster), um plástico produzido a partir do petróleo bruto e também usado para criar muitos outros artigos domésticos, desde mangueiras a garrafas de ketchup. Prevê-se que mais de 98 por cento da produção de fibras no futuro será de sintéticos, sendo 95 por cento desses de poliéster. Sem dúvida, reaproveitar plástico antigo é melhor do que produzir mais; no entanto, uma solução a longo prazo seria incentivar a indústria da moda a avançar para a criação de roupas a partir de fontes sustentáveis, que não prolonguem os efeitos nocivos para o ambiente.


Dois estudantes de moda no Delaware criaram sapatos biodegradáveis, utilizando uma parte de cogumelo chamada micélio, penas de galinha e resíduos têxteis. É esta inovação local que poderá liderar a indústria da moda. Jillian Silverman, co-criadora destes sapatos, disse à Screen Shot: “O micélio tem sido usado em estruturas duras, como embalagens e isolamento, e a nossa proximidade das quintas de cogumelos em Kennett Square, na Pensilvânia, proporcionou-nos uma excelente fonte local de material.”


Além dos tecidos, há outros fatores para tornar a moda totalmente sustentável, especialmente para marcas de maior dimensão. Silverman continuou: “A indústria têxtil precisa de métodos de produção mais sustentáveis, materiais e considerações para o fim de vida dos produtos; a sola de micélio pode ser produzida com energia mínima, é não tóxica e segura para trabalhar e usar, e pode decompor-se de forma segura quando deixa de ser útil. Outros materiais biológicos oferecem benefícios semelhantes, e este tipo de inovação é crucial para melhorar as indústrias de vestuário e calçado.”


O conceito de produzir vestuário a partir de fios de plástico regenerado dos oceanos é, em teoria, uma ideia revolucionária, mas as consequências do ato de lavar tecidos sintéticos não resolvem realmente o problema ambiental dos microplásticos. Roupa consciente do impacto do plástico é apelativa para consumidores cada vez mais conscientes dos impactos ambientais, mas isto não pode ser considerado o objetivo final da moda sustentável. Se o vestuário sintético é uma parte essencial da indústria da moda (o que não deveria ser), então usar plástico antigo que está a poluir o mar é certamente melhor do que criar mais. Contudo, o ideal seria que a moda passasse a usar apenas tecidos sustentáveis e biodegradáveis para criar vestuário, como no projeto de Silverman, e só quando isso acontecer—e quando outros impactos, como a redução de resíduos, práticas de fabrico e impactos humanos forem melhorados—a moda poderá ser elogiada por um impacto ambiental reduzido.







 


FONTE:

https://www.fairplanet.org/story/could-regenerated-yarns-made-from-ocean-plastic-be-fashions-future/

ECO-LIFE: ''Pode o plástico marinho ser transformado em fio?''

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022