2700 litros de água é o preço que o planeta paga para o Humano confeccionar apenas uma t-shirt. 2700 litros é a quantidade de água que cada ser humano bebe em três anos. 11000 litros de água são necessários para confeccionar cada par de calças de ganga. Num mercado acelerado pelas novidades baratas que a fast fashion disponibiliza, compra-se cada vez mais e usa-se cada vez menos; se as nossas escolhas têm um impacto directo no planeta, no que toca aos têxteis, os números dão que pensar: 80% das fibras utilizadas na produção de roupa não são recicladas, o que faz com que sejam gastos mais recursos, como por exemplo água, um bem progressivamente escasso.
O algodão é uma fibra natural, tal como a lã e a seda. Mas, das três, é a mais utilizada na indústria têxtil. É produzido na Índia, China, Estados Unidos, Brasil, Paquistão e Uzebequistão, em zonas onde a água escasseia mas o clima é compatível. O ritmo e a quantidade de produção de roupa estão a absorver recursos hídricos e a poluir o ambiente a uma velocidade preocupante. O consumo excessivo de água, a emissão de CO2, a contaminação de rios e da água que bebemos são uma realidade. Se o vestuário em algodão é um sorvedouro de água, o de poliéster é um feroz emissor de dióxido de carbono.
Por isso, a indústria têxtil é a segunda mais poluente a seguir à petrolífera. E o mal continua depois da confecção. Cada vez que se lava uma peça de roupa, entre 500 a 3 mil fibras são libertadas na lavagem. Cada europeu e norte-americano compra 16 quilos de roupa por ano e a produção de vestuário de moda acessível, estima-se, vai duplicar até 2030.
A pegada ecológica está ligada à crescente demanda mundial por bens de consumo, que coloca em risco os principais recursos naturais do planeta. Muitas vezes, a indústria e os consumidores não estão plenamente conscientes do nível do impacto que essa exigência pode causar no equilíbrio ambiental. Em outras palavras, quando um empresário decide abrir uma fábrica de sapatos, por exemplo, ele vai gastar certas quantidades de recursos naturais para que o produto final possa ser vendido. E o consumidor que precisa de um novo par de sapatos vai adquirir o produto. No entanto, nenhuma das partes sabe ao certo qual foi a demanda ecológica que o objeto causou na natureza. Essa falta de informação complica a elaboração de políticas públicas e contribui para a sobrecarga ecológica do planeta.
Precisaremos assim de tanta roupa? Novas tendências apontam para materiais reciclados e para um consumo mais minimalista, embora de maior qualidade. É uma questão de tempo, preço e quantidade: para cada um de nós e para o planeta.
O desaparecimento do mar de Aral (na Ásia Central) é considerado uma das alterações mais dramáticas feitas na superfície da Terra em séculos, e uma das maiores catástrofes provocadas pela mão humana. Para estimular o cultivo de algodão, políticas de irrigação agressivas implementadas pelos soviéticos transformaram 90% do que costumava ser o quarto maior lago do mundo em um deserto. Foram necessários apenas 40 anos para que o quarto maior lago do mundsecasse. O que antes eram 60 mil quilómetros quadrados de água, com profundidade de 40m em alguns locais, evaporou. Agora, resta apenas 10% do lago.
FONTES:
https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/02/150226_mar_aral_gch_lab
A mão feminina segura um pesado e antigo livro, dedicado à história da Grécia Antiga. Sob a palma da mão aberta, recordamos como o papel, tal como o tecido, é também uma fibra vegetal. Na Grécia Continental, o linho foi um dos mais importantes têxteis e, no território que viria a ser Portugal, o cultivo do linho e a sua utilização têxtil provêm dos tempos pré-históricos. Se em certas jazidas de Almeria (2500 a.C.), foram encontradas cápsulas de linhaça, numa “sepultura” do Algarve, considerada da 1ª fase do bronze mediterrâneo peninsular, recolheu-se um pequeno farrapo de linho (2500 a.C.). Presentemente, ainda se produz linho em alguns países da Europa Ocidental.
A seda é também uma fibra proteica usada na indústria têxtil e obtida a partir dos casulos do bicho-da-seda que são fervidos em estado larvar (antes de chegar a mariposa), para obter a fibra natural da seda. Os casulos são mergulhados em água quente para libertar os filamentos da substância chamada sericina da seda, matando a larva do bicho-da- seda. A substância, ao ser retirada dos fios, deixa estes com a cor brilhante característica da seda. Os filamentos são combinados para formar fios, que são enrolados e finalmente secos.
Em Portugal, a produção de linho industrializou-se. Além do linho, o sector têxtil tem vindo a apostar em fibras de base vegetal, como a banana, folhas de abacaxi ou resíduos da cana-de-açúcar, milho, cânhamo e animal. O objetivo de reciclar é minimizar o desperdício, reduzir o impacto de voltar a tingir e evitar o desgaste das pastagens. Situada em Moreira de Cónegos, a fábrica Polopique tem vindo a investir numa fiação de linho 100% natural, única na Europa. A aposta neste tipo de fiação surge também num contexto em que a procura por fios sustentáveis e com baixo impacto no meio ambiente aumentou. Num cantinho da Beira Alta, o linho ainda se produz artesanalmente. Nesta escondida na zona de Viseu. Estendem-se os campos do linho em flor. Este linho é plantado entre Março e Abril e está pronto a colher no princípio de Julho. Na colheita, é arrancado inteiro, reunido e levado para ripar, aí passando pelos ripeiros para retirar as sementes e as folhas, até sobrar apenas o caule, de onde será produzida a fibra nas fases seguintes. Aqui, a planta ainda se semeia e trabalha, preservando uma cultura artesanal em extinção. Os caules do linho vão ser macerados.
Documentário etnográfico de proximidade, o filme O Linho é um Sonho, da portuguesa Catarina Alves Costa (2003). destaca as técnicas e processos em desaparecimento com atenção e silêncio: https://www.youtube.com/watch?v=zKfOLDrRcZc
Nem todas as matérias primas de origem animal são vegan ou cruelty free.
Se, ao contrário do século passado, já não temos, em Portugal, crianças a trabalhar em fábricas, como poderemos garantir que todas as nossas roupas (produzidas alhures) foram integralmente feitas por trabalhadores adultos, em condições dignas e justamente pagos?
Chama-se precisamente de fairtrade à atenção ao comércio justo, através de um processo que vai da produção das matérias primas à exportação. O fairtrade é, portanto, um dos eixos sustentáveis em que a moda é encarada numa perspectiva ecológica, procurando que todas as etapas envolvidas no processo de manufactura e exportação sejam justas para todas partes. E como poderia definir-se eco-fashion? À escala global, começa a brotar uma consciência colectiva que reclama por uma moda mais ética, tanto no uso de recursos naturais como na contenção dos resíduos gerados pela indústria.
São jovens as mãos que costuram numa sala de aula da universidade. Em conjunto com a escola MARIA MODISTA, activa em pontos do país, a investigadora Carla Alferes Pinto fundou na Universidade Nova de Lisboa, o projecto “Veste” (Financiado pela Gulbenkian), para dinamizar o handmade e recuperar o ensino da costura. Com o âmbito de reabilitar as manualidades, poupar dinheiro e ajudar a não poluir o ambiente, aqui desenham-se e costuram-se peças modernas sob supervisão.
Entre algodões e chitas de padrão tradicional, amontoam-se na cave do antigo solar de traça alentejana os variados rolos de tecido antigo. Reutilizando uma antiga técnica de patchwork, Rita Correia (Rita Cor) reaproveita, em Santarém, lençóis, pedaços têxteis e sobras de stocks de antigas lojas de tecido e faz almofadas, colchas e casacos.
Com a sua bebé EVA a brincar ao lado e um portátil aberto, ANDREIA MARQUES tece em casa. Com o seu tear manual à frente e uma música de fundo a ecoar, cantarola suavemente o refrão enquanto faz passar as meadas de algodão pelo instrumento artesanal de madeira (‘‘slow weaving’’). Promovendo a sua marca online, nascida do Movimento Slow, a artesã desenvolve a It’s OK To Go Slow, uma marca (publicitada em múltiplas plataformas) que disponibiliza tapeçarias, almofadas e objectos decorativos de design moderno, handmade. Aproveitando fibras de desperdício, cria padrões assimétricos únicos. ‘‘Idealmente, só quero trabalhar com lã das minhas ovelhas’’, diz Andreia C. Marques enquanto fez ''shredding'' de tecido de desperdício que lhe foi doado e que serve para o preenchimento. Também reaproveita todos os pedaços de lã maiores do que 8cm, fazendo esmirna em tela de talagarça.
http://www.portugalmanual.com/artesaos/its-go-slow
https://www.instagram.com/andreiacmarques
As catastróficas condições de trabalho do outro lado do hemisfério, chegam em mensagens de SOS, que aparecem cosidas no interior de bainhas de vestidos e calças Primark, e são encontradas pelos horrorizados consumidores ocidentais.
Alimentadas por grandes corporações, dezenas de fábricas ilegais florescem na capital de Bangladesh na última década tentando tirar proveito do "boom" de roupas baratas. Inúmeras dessas operações ocorrem à margem do poder governamental e não cumprem com os requisitos mínimos de segurança, como proteção contra incêndio. Além disso, menores de idade trabalham ilegalmente nas linhas de confecção de roupas. Não é segredo que muitas das grandes fábricas da região sub-contratem plantas menores para baixar os custos e atender aos prazos dos clientes.
Nesses locais, a actividade pode ser apenas pregar botões ou costurar fechos. Em seguida, as roupas retornam à fábrica contratante e "legal", sem que os compradores conheçam qualquer detalhe desse processo. Quando foi noticiado que a fábrica de Tazreen fazia roupas para o Walmart, a cadeia americana disse que não tinha conhecimento destas práticas. A mesma estratégia de defesa é usada por outras fábricas localizadas no norte de Dhaka. O governo de Bangladesh, por outro lado, alega que quer melhorar as condições de trabalho, mas diz que se preocupa com as consequências para as milhões de pessoas que dependem da indústria para garantir sua sobrevivência.
"O maior direito humano é o direito à sobrevivência", havia dito o ministro do Comércio do país, Ghulam Mohammed Quader, em entrevista antes da tragédia da semana passada. Entretanto, espera-se que as catástrofes convidem a uma maior reflexão sobre o assunto. Como afirmou um sindicato de Bangladesh: "Quando você compra algo e leva outro de graça – não é exactamente de graça"".
(BBC)
A slow fashion prioriza o local em relação ao global, promovendo uma consciência sócio-ambiental. Pratica preços reais que incorporam custos sociais e ecológicos e estimulam o consumo consciente, mais informado e actualizado. Contrapõe-se à fast fashion, um sistema actual e dominante de produção de moda que prioriza a fabricação em massa, a globalização, o apelo visual, a novidade, a dependência, a ocultação dos impactos ambientais do ciclo de vida do produto, o custo baseado em mão de obra e materiais baratos sem levar em conta aspectos sociais da produção.
A slow fashion convoca uma atenção ao handmade, à sustentabilidade e à qualidade, por oposição ao capitalismo desenfreado que sai mais fácil e mais barato. O termo foi cunhado por volta de 2004, em Londres, por Angela Murrills, na revista de moda Georgia Straight.
Procurando uma alternativa saudável aos combustíveis fósseis, redobra-se a atenção às fibras naturais e orgânicas. Também os modos de produção resgatam as raízes ancestrais. A slow fashion desafia a moda a reorientar a qualidade de seus produtos de maneira a que a confecção de vestuário considere aspectos integrais e não apenas a aparência, muitas vezes o handmade e as técnicas tradicionais.
Com a actuação da indústria globalizada que domina o mercado, a escolha de produtos diferentes é inviabilizada pela padronização. A slow fashion é uma alternativa que promove sistemas de produção transparentes e com menos intermediação entre produtor e consumidor. Garante um comércio mais justo, valorizando os direitos das trabalhadoras (as mulheres ocupam uma percentagem significativa das profissões no ramo têxtil). Além do mais, quando se evita intermediações nas trocas, o produto tende a encarecer menos e a manufactura é valorizada.
A produção globalizada de fast fashion é feita por grandes marcas que padronizam as roupas à escala global, o que acaba diminuindo o espaço para as especificidades culturais, desvaloriza trabalhadores locais e consome recursos. Valorizar consumidores, produtores e recursos locais, em contraposição à produção globalizada, é uma alternativa à padronização, à centralização e à produção de produtos idênticos, numa “economia distribuída” que se organiza em rede.
A produção de roupas e acessórios, em geral, depende muito da comunidade local e, na produção globalizada (fast fashion), os detalhes que a precedem são intencionalmente obscurecidos pela marca. No modelo slow fashion, a transparência procura informar a origem real dos produtos: em vez de omitir a origem da produção com nomes genéricos de um estilista ou marca, por exemplo. Referenciando empresas de menor escala, o modelo torna-se mais transparente. Além disso, ao diminuir intermediadores no processo de troca das mercadorias, o consumidor aproxima-se do produtor.
FASHION REVOLUTION: handmade, slow fashion, sustentabilidade
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022
autora:
Sabrina D. Marques (aluna da Modatex, 2022)
