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''UNDERCONSUMPTION CORE'': O conceito do subconsumo está a instalar-se

sábado, 26 de outubro de 2024


Uma jornalista disfarçada filmou duas fábricas chinesas da gigante do "fast fashion". A Shein tem sido criticada por fazer quase tudo o que não se pode fazer numa empresa, incluindo ter más condições de trabalho, altos níveis de produtos químicos tóxicos nas peças que produz, cópia de modelos de designers e uso indevido de dados de clientes.

A trabalhar cerca de 18 horas por dia, sem folgas e a ganhar três cêntimos por peça de roupa - estas são as condições de muitos dos funcionários das fábricas que produzem as roupas e outras peças vendidas online pela Shein, revela o documentário "Untold: Inside the Shein Machine". A investigação da estação de televisão britânica descobriu pormenores "desumanos" sobre as práticas da empresa chinesa de moda. O canal enviou uma jornalista disfarçada, com o nome "Mei", para filmar dentro de duas fábricas em Guangzhou, na China, que fornecem roupas para a gigante da fast fashion. 

FONTE: CNN Portugal Outubro 2022

SHEIN: O VERDADEIRO PREÇO DA ROUPA BARATA

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

 

Em muitas partes do mundo, o descarte de máscaras cirúrgicas acaba por entupir os cursos aquosos com lixo, exacerbando a poluição e afectando as pescas. A realidade dos pequenos pescadores é navegar entre oceanos de máscaras descartáveis. 

Em Dezembro de 2020, uma organização de conservação marinha baseada em Hong-Kong estimou que estariam cerca de 1,56 milhões de máscaras a flutuar pelos oceanos do globo apenas nesse ano. Isto resulta numas adicionais 4,680 - 6,240 toneladas de poluição marinha, a entrar nos mares a cada ano. A City University of Hong Kong’s School of Energy and Environment adiciona que só as máscaras cirúrgicas poluem 54,800 piscinas olímpicas de água do mar, a cada ano. O plástico contido nas máscaras é outro factor preocupante, por ser polímero. Pela natureza das fibras, desfazem-se rapidamente mas não desaparecem. Tornam-se micro-plástico. Uma só mascara  pode libertar 173,000 microfibras por dia, exposta à Luz UV e vigorosamente agitada, segundo um estudo da University de Milano Bicocca em Itália.As Microfibras são tão minúsculas que podem penetrar o mais baixos níveis das cadeias alimentares, como o fítoplancton e o krill. Mas as máscaras são apenas uma fracção minúscula do problema. A poluição marinha tem vindo a ser uma questão nas últimas décadas, mesmo antes da proliferação das máscaras cirúrgicas pelo globo. Mesmo que digamos que há 5,000 toneladas de máscaras de plástico a entrar no oceano, oito milhões de toneladas de plástico entram nas nossas águas marinhas a cada ano. Há que encarar todo o consumo de plástico, não apenas as máscaras. 


FONTE:https://www.fairplanet.org/story/surgical-face-masks-linked-with-rising-water-pollution/

SOS: ''Máscaras descartáveis e o aumento da poluição marinha''

quarta-feira, 2 de março de 2022







A sustentabilidade é uma das faces mais procuradas da moda contemporânea, e por pertinentes razões. À medida que as alterações climáticas se tornam uma maior ameaça a cada dia, considerar o impacto dos materiais torna-se da mais vital importância. Na Finlândia, uma muita particular equipa está a explorar um novo segmento: o Emblamar Studio. O seu novo projecto Transform encara as algas marinhas como um material natural para fazer roupas, depois de ter já encontrado o seu lugar noutras indústrias. Usando uma fórmula para o seu tratamento, o estúdio encontrou uma inovadora maneira de usar este ''tecido'', simultaneamente alertando para a nossa necessidade de sustentabilidade e abrindo caminho para o desenho orgânico de novas peças. Porque as sereias nunca passam de moda, talvez as algas integrem o seu futuro.


FONTE:
https://www.hungertv.com/editorial/the-team-using-seaweed-to-provide-a-sustainable-alternative-to-fast-fashion/

''A palavra “orgânico” é uma poderosa ferramenta de marketing – as marcas gostam de divulgar a sua preferência por produtos “verdes” para mostrar que estão a fazer a sua parte para combater a pegada ambiental da indústria da moda. As marcas sabem, também, que os consumidores preferem um produto que acreditam ser mais amigo do planeta. Habitualmente, o que é orgânico cresce sem recurso a aditivos sintéticos ou a pesticidas e não é geneticamente modificado. Contudo, a realidade nem sempre é tão simples.

Num painel recentemente organizado pela Cotton Inc., alguns dos oradores presentes começaram por explicar que as variedades de algodão convencional têm maior rendimento, ou seja, uma única planta irá produzir mais fibra do que a sua contraparte orgânica. Isso acontece porque o algodão convencional foi geneticamente projetado para esse fim. Nos últimos 35 anos, a produção de algodão aumentou 42%, em grande parte devido à biotecnologia e a melhorias técnicas na irrigação das culturas.

O algodão orgânico, por definição, vem de plantas que não foram geneticamente modificadas. Devido a essa diferença, para conseguir a mesma quantidade de fibra de uma cultura orgânica é necessário plantar mais algodão, o que significa usar mais terra. Essa terra, claro, tem de ser cuidada e irrigada.'' 

São necessários, segundo a Cotton Inc., aproximadamente 1.097 litros de água para fazer crescer o algodão convencional necessário à produção de uma t-shirt. Já para produzir a mesma t-shirt com algodão orgânico é preciso cerca de 2.498 litros de água.

A principal preocupação ambiental com o uso da água refere-se à irrigação, especialmente em países como a Índia, com grande escassez de água. Cerca de metade das culturas de algodão a nível global – orgânicas e convencionais – recolhem a água das chuvas, de acordo com a Cotton Inc., não sendo claro qual a quantidade adicional de água que uma determinada peça de roupa necessitou para ser produzida.

Há quem defenda que o algodão orgânico exige menos água ao longo do tempo, em grande parte porque o solo com mais carbono proveniente da matéria orgânica armazena melhor a água. Mas geralmente uma planta de algodão tem a mesma necessidade de água, independentemente de ser orgânica ou não. Além disso, os agricultores convencionais também usam muitos métodos para manter o solo saudável.

Existem ainda outras variáveis a ter em consideração, como os quilómetros que o algodão viaja até chegar ao guarda-roupa dos consumidores. É na Índia que cresce grande parte do algodão orgânico mundial e os EUA são provavelmente o seu maior consumidor. Enquanto isso, a sueca H&M, que fabrica a maioria da sua roupa na Ásia, assume-se como uma das maiores utilizadoras de algodão orgânico.

Outra questão é saber como é que a peça de roupa foi tingida e acabada. Este processo pode também ser orgânico ou não. Se for, a peça tem de ser certificada num programa como o Global Organic Textile Standard.

O algodão orgânico pode ter uma vantagem no que diz respeito à menor utilização de produtos químicos. Ainda são utilizados produtos químicos, mas apenas os que derivam de produtos naturais, ditos menos nocivos. Contudo, algumas evidências sugerem que certos pesticidas orgânicos podem ser piores para o ambiente do que os convencionais. Ainda assim, alguns produtos químicos usados na agricultura convencional têm suscitado sérias preocupações, como o glifosato, um herbicida da Monsanto amplamente utilizado mas que a Organização Mundial de Saúde considerou «potencialmente cancerígeno». 

FONTE: https://www.portugaltextil.com/algodao-organico-pior-a-emenda-que-o-soneto/


A cada ano, 12,7 milhões de plástico encontra o seu caminho em direcção aos oceanos, com alguns milhões ficando presos no gelo ártico e outros acolhidos nos estômagos de animais marinhos enredados no pescoço de aves, golfinhos e tartarugas. Como resposta, muitas marcas de roupa estão a aproveitar esta oportunidade para incorporar fios regenerados nas suas colecções. Será uma medida mais sustentável para o planeta? Tecnologia e moda uniram-se para produzir os fios Bionic e Econyl, feitos a partir de plástico descartado nos oceanos. Desde garrafas de água a embalagens de takeaway e até redes de pesca antigas, parece que a moda tem integrado o reaproveitamento do plástico na sua agenda. Este plástico está a ser reciclado em fios utilizáveis para a criação de peças como sapatilhas, roupa desportiva, lingerie e até vestidos.


Esses fios são cada vez mais usados por marcas locais e globais para criar todos os tipos de produtos têxteis. Esta integração não só remove o plástico dos oceanos e o reutiliza, como também contribui para melhorar as comunidades locais. Há dois anos, doze toneladas de redes de pesca abandonadas foram recolhidas na região Basca e transformadas em fio Econyl; este ainda está a ser usado atualmente, integrando a coleção de outono-inverno 2018 da marca de vestuário Ternua.


No entanto, existem problemas ao reutilizar plástico em vestuário. Quando qualquer roupa sintética é lavada, pequenas fibras de plástico podem ser libertadas dos tecidos, e estes microplásticos podem infiltrar-se nos sistemas de água. Segundo Mark Anthony Browne na revista Environmental Science & Technology, uma única peça de vestuário sintético pode libertar quase 2.000 microfibras por lavagem. Em julho de 2018, no Reino Unido, esses microplásticos—comparáveis aos grânulos usados em cosmética—serão proibidos para venda devido à ameaça que representam para a vida marinha, pois entram nas cadeias alimentares e causam sérios danos à vida aquática. Ao mesmo tempo, as dimensões microscópicas destes plásticos significam que eles nem sempre podem ser filtrados pelos sistemas de esgotos, revelando-se uma preocupação ambiental séria.


Atualmente, o uso de materiais sintéticos na moda é inevitável e continuará a ser utilizado para criar moda descartável no futuro próximo. O tecido sintético mais comum é o polietileno tereftalato (poliéster), um plástico produzido a partir do petróleo bruto e também usado para criar muitos outros artigos domésticos, desde mangueiras a garrafas de ketchup. Prevê-se que mais de 98 por cento da produção de fibras no futuro será de sintéticos, sendo 95 por cento desses de poliéster. Sem dúvida, reaproveitar plástico antigo é melhor do que produzir mais; no entanto, uma solução a longo prazo seria incentivar a indústria da moda a avançar para a criação de roupas a partir de fontes sustentáveis, que não prolonguem os efeitos nocivos para o ambiente.


Dois estudantes de moda no Delaware criaram sapatos biodegradáveis, utilizando uma parte de cogumelo chamada micélio, penas de galinha e resíduos têxteis. É esta inovação local que poderá liderar a indústria da moda. Jillian Silverman, co-criadora destes sapatos, disse à Screen Shot: “O micélio tem sido usado em estruturas duras, como embalagens e isolamento, e a nossa proximidade das quintas de cogumelos em Kennett Square, na Pensilvânia, proporcionou-nos uma excelente fonte local de material.”


Além dos tecidos, há outros fatores para tornar a moda totalmente sustentável, especialmente para marcas de maior dimensão. Silverman continuou: “A indústria têxtil precisa de métodos de produção mais sustentáveis, materiais e considerações para o fim de vida dos produtos; a sola de micélio pode ser produzida com energia mínima, é não tóxica e segura para trabalhar e usar, e pode decompor-se de forma segura quando deixa de ser útil. Outros materiais biológicos oferecem benefícios semelhantes, e este tipo de inovação é crucial para melhorar as indústrias de vestuário e calçado.”


O conceito de produzir vestuário a partir de fios de plástico regenerado dos oceanos é, em teoria, uma ideia revolucionária, mas as consequências do ato de lavar tecidos sintéticos não resolvem realmente o problema ambiental dos microplásticos. Roupa consciente do impacto do plástico é apelativa para consumidores cada vez mais conscientes dos impactos ambientais, mas isto não pode ser considerado o objetivo final da moda sustentável. Se o vestuário sintético é uma parte essencial da indústria da moda (o que não deveria ser), então usar plástico antigo que está a poluir o mar é certamente melhor do que criar mais. Contudo, o ideal seria que a moda passasse a usar apenas tecidos sustentáveis e biodegradáveis para criar vestuário, como no projeto de Silverman, e só quando isso acontecer—e quando outros impactos, como a redução de resíduos, práticas de fabrico e impactos humanos forem melhorados—a moda poderá ser elogiada por um impacto ambiental reduzido.







 


FONTE:

https://www.fairplanet.org/story/could-regenerated-yarns-made-from-ocean-plastic-be-fashions-future/

ECO-LIFE: ''Pode o plástico marinho ser transformado em fio?''

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Bacia do Rio Ave 

Se a moda está tão estreitamente associada à modelação de um conceito de feminino ancestral, de que forma é que estará ligada à evolução do feminismo? Com o sector têxtil como pano-de-fundo, pensamos na relação entre o vestuário e a evolução da mulher, em Portugal.

À mesma mesa, trazem-se as mais contraditórias perspectivas: se por um lado a costura era uma possibilidade de trabalhar em casa numa altura em que certas mulheres não podiam sair do espaço doméstico, emancipando-as com um salário, por outra, o trabalho fabril na área têxtil é, claramente, duro e monótono; Se, por sua vez, as mulheres sempre costuraram e bordaram, ainda assim, só recentemente é que esta arte saiu da perspectiva do artesanato, sendo reconhecida enquanto expressão autoral.

 

https://roselynsilva.com/

ECO-LIFE: Roselyn Silva


'' Cerca de 170 produtores de lã de merino, representando mais de um milhão de hectares de terreno, estão envolvidos numa nova plataforma para o aprovisionamento de lã proveniente de uma produção agrícola regenerativa, uma iniciativa da New Zeland Merino Company com as marcas Allbirds, icebreaker e Smartwool. Baptizada de ZQRX, a plataforma criada pelas quatro entidades está atualmente a trabalhar com 167 produtores de ovelhas na Nova Zelândia, que ocupam uma área superior a um milhão de hectares, e pretende ser uma referência para as marcas internacionais e mais uma ferramenta no combate às alterações climáticas.

«Estamos numa viagem de melhoria contínua que reconhece e celebra o progresso em vez da perfeição. Através do nosso trabalho na pegada de carbono com as nossas marcas parceiras, e com o apoio do Ministério das Indústrias Primárias, sabemos que as emissões nas quintas representam cerca de 60% das emissões associadas com os produtos de lã e são a nossa maior oportunidade para baixar o nosso impacto», explica John Brakenridge, CEO da New Zealand Merino Company. Por isso, acredita, a nova plataforma «é uma evolução importante e necessária do nosso programa de lã ética, o ZQ, Através da adopção de práticas regenerativas que ao mesmo tempo armazenam mais e emitem menos carbono, podemos reduzir as nossas emissões em quinta para zero».

O índice ZQRX inclui as bases do ZQ, como o bem-estar animal e a responsabilidade social, e coloca uma maior ênfase em questões ambientais que reduzem diretamente as emissões de carbono e melhoram a biodiversidade, como os resíduos, a qualidade da água e a saúde do solo.

«O índice ZQRX responde à saúde do ecossistema e das comunidades agrícolas, recompensando o valor dos agricultores que estão empenhados em práticas agrícolas regenerativas», aponta John Brakenridge. «A ZQRX é o início de um movimento mundial para as marcas, negócios e produtores trabalharem em conjunto em questões críticas mundiais, como as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade. Sonhamos com um dia em que a lã é produzida com práticas regenerativas», salienta.

Juntos pelo mesmo objetivo

Um objetivo comum às marcas envolvidas. «Como vimos ao longo de 2020, uma grande mudança só pode ser conseguida através de uma ação coletiva. Juntos, os concorrentes têm influência suficiente para endireitar o navio no que diz respeito à ameaça universal das mudanças climáticas. Com o ZQRX, estamos a apoiar um movimento para um futuro verdadeiramente regenerativo, um que dá prioridade ao planeta e apoia a nossa busca incessante para fazer coisas melhores de uma forma melhor», sustenta Tim Brown, cofundador da Allbirds. 

A icebreaker e a Smartwool, esta última parte da VF Corporation, tinham já ajudado a fundar a plataforma original ZQ há 13 anos, enquanto a Allbirds, que também se aprovisiona de lã ética com recurso à ZQ, será a primeira marca de moda a etiquetar todos os artigos que vende com a sua pegada de carbono.

«Acreditamos na melhoria contínua e quando sabemos mais, fazemos mais. É por isso que temos estado a impulsionar soluções inovadoras de lã merino sustentável em todos os níveis do nosso negócio há mais de 25 anos», aponta Jen McLaren, presidente da marca Smartwool.

Já o presidente da marca icebreaker, Greg Smith, confessa que «estamos constantemente impressionados pela forma como os produtores cuidam da sua terra, dos seus animais e das suas pessoas. Está tudo interligado. Os nossos produtores já fizeram avanços, ao longo de gerações, para cultivarem de forma regenerativa. A ZQRX honra esses passos e dá-nos uma plataforma para medir, seguir melhorias e ir mais além».

Em conjunto, as três marcas representam aproximadamente 2 milhões de quilos de lã. «Embora não haja uma solução única para os desafios climáticos que enfrentamos, a plataforma ZQRX dá poder aos agricultores para trabalharem com a natureza para melhorarem continuamente. É um passo que nós, coletivamente, enquanto marcas líderes mundiais em lã merino, podemos dar para mudar o mundo e deixar o planeta melhor do que o que encontramos», conclui Greg Smith.''

FONTE: https://www.portugaltextil.com/la-regenerativa-ganha-aliados/


O desabamento, em 2013, de um prédio de três andares onde funcionava uma fábrica de tecidos em Bangladesh revelou não só o amplo incumprimento das normas básicas de segurança no país, como também o lado obscuro da indústria de moda internacional. Na tragédia, que ocorreu na capital Dhaka, morreram pelo menos 377 pessoas.  

"É no norte da capital Dhaka que se concentra a maior parte das fábricas de roupas do país. Muitas delas fabricam peças para marcas internacionalmente conhecidas. Das casas de um quarto e dos casebres onde os operários vivem, podem-se ver blocos de concreto de múltiplos andares atravessando os céus da região. Nos telhados, vigas de aço reforçado são aparentes, na esperança de que outro piso repleto de máquinas de costura seja erguido. Trata-se de um sinal, para os críticos, de que o "boom de roupas" ultrapassou os limites, na tentativa desesperadora de alimentar o apetite do Ocidente por roupas mais baratas. O Rana Plaza, que desabou uma semana antes, era mais uma entre as dezenas de fábricas locais, com a cadeia de lojas britânica Primark como um de seus principais clientes. Em sua defesa, a Primark informou que estava "chocada e entristecida" pelo desastre e que exigiria de seus outros fabricantes uma revisão dos padrões de segurança no trabalho. Mas esta é apenas uma pequena amostra de um cenário conhecido há bastante tempo na região. Seis meses antes, no mesmo local, um incêndio reduziu a cinzas uma fábrica que fazia roupas para a cadeia americana de supermercados Walmart, matando 100 trabalhadores, até então o maior acidente industrial já ocorrido em Bangladesh.


A placa com a frase "Proibido trabalho infantil" adorna a entrada de muitas fábricas, assegurando o cumprimento de uma lei nacional que impede o trabalho de menores de 18 anos na indústria de roupas. Mas ainda não está claro se os fiscais das marcas internacionais também procuram "falhas estruturais" nos edifícios onde muitas dessas fábricas estão localizadas.

FONTE: https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/04/130428_bangladesh_tragedia_lado_obscuro


SOS: Derrocada de uma fábrica têxtil (Primark) no Bangladesh, 2013

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

No presente, a Moda precisa de prestar mais atenção ao interesse do consumidor em roupas usadas, na reciclagem e no upcycling, que se opõem à cultura do “novo”, tornando o gesto de vestir mais sustentável.

A OUTRA FACE DA LUA

GOLPE

BOUDOIR 

HUMANA



ECO-LIFE: Onde comprar Vintage em Lisboa

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022


Foi em 2020 que milhares se juntaram para tricotar 1245 metros de linha vermelha contra a prospecção de combustíveis fósseis em Portugal. O projecto originou o colectivo LINHA VERMELHA que alude às linhas vermelhas que estão a ser ultrapassadas no que respeita à questão climática. A campanha - diz João Costa (mentor do projecto) -nasceu em 2016 com a vontade de agregar “dois mundos” que raramente se juntam e que têm muito em comum: o mundo do tricô e do crochê com o mundo da luta pela justiça climática.


SOS: Projecto Linha Vermelha

domingo, 20 de fevereiro de 2022



Novos projectos e talentos sustentaram-se, durante a pandemia, com a internet como primeira plataforma de exposição. Rentabilizando os recursos locais e reutilizando os materiais, produzir com qualidade tem significado garantir um regresso à ancestral durabilidade dos objectos têxteis, contra o domínio da fast fashion.

No entanto, em 2021, a youtuber Mina Le alertava para a deslocalização dos problemas do Youtube e do Instagram para a nova rede, o TikTok. As modas de fazer shopping sprees, hauls, bundles, os canais dedicados ao unboxing, os challenges e a actualização das trends ao segundo estimulam o sobreconsumo de fast fashion em níveis nunca anteriormente registados.

SLOW FASHION versus FAST FASHION

 


https://www.fairplanet.org/support/clean-clothes-campaign-goes-on/

A Clean Clothes Campaign (Campanha por  is dedicated to improving working conditions and supporting the empowerment of workers in the global garment and sportswear industries, help ensuinge that the fundamental rights of workers are respected. Through education and mobilisation of consumers, lobby companies and governments, they support worldwide workers in the textile industries as they fight for their rights and demand better working conditions.

The CCC calls on all companies involved in the  collapse of the Rana Plaza factory building in Bangladesh in April 2013, killing 1,134 people and leaving thousands more injured, to finally make substantial contributions to the compensation fund. It was the worst ever industrial accident to hit the garment industry. Only in this way can the surviving victims and dependents of Rana Plaza be ensured of a dignified existence.

Support the Clean Clothes Campaign with their petition to help demanding a compensation from the responsable companies for the Rana Plaza victims! 


Também a escravidão das marcas de luxo em países de Leste tem sido objecto de documentários, em Países como a Bulgária, Roménia ou Moldávia, pelas longas horas de trabalho das assalariadas na produção de bens que não têm poder económico para adquirir. 
O outsourcing de marcas de luxo, como a Hugo Boss, para a Bulgária deve-se à produção excepcionalmente rápida. A pressão sobre os funcionários é intensa. Nas fábricas, apenas 11 em 1800 trabalhadores consegue acabar a sua quota de produção esperada. 



No contexto fabril, os exemplos de abuso - à escala internacional - são vários e extremos. Chegam notícias de fábricas de têxtil no Lesotho (África), onde se produziam Levis e Wrangler, e hoje se referem abusos sexuais contra 120 trabalhadoras.

A 17 de Maio de 2021, depois de denúncias na Fábrica tailandesa de que as trabalhadoras da Hippo Knitting foram alvo de assédio e violência no local de trabalho, a IndustriALL Global Union (Sindicato) e a União Democrática do Lesotho (IDUL) estão a lutar contra as violações.
Esta unidade fabril tailandesa, situada no Maseru, Lesotho, fornece roupa desportiva à Fabletics, uma marca co-fundada pela actriz Kate Hudson.
Três trabalhadoras e membros da IDUL confirmam que o assédio sexual e o abuso verbal são comuns na fábrica, em diversas formas, que incluem serem obrigadas a despir durante a inspecção. Em razão diária, abusos verbais incluem comentários sobre os corpos das mulheres e outros apontamentos maldosos.
A gerência também espia as vidas privadas das mulheres e usa a informação para decidir quem deve reportar-se para trabalho extra ao fim-de-semana. Mahabiso Moshabe, costureira na fábrica, afirma que ''a empresa pede às mulheres para despir durante as revistas e quando elas largam o trabalho, justificando que respondem a suspeitas de roubos da fábrica. Mas nós recusamos as revistas corporais, que são humilhantes, desrespeitadoras e contra a nossa dignidade. Um dos responsáveis pelos recursos humanos provoca as trabalhadoras, dizendo que se se despem para ser fotografadas também têm de despir-se para revistas corporais. O responsável também faz pouco dos seus corpos, goza com a sua maneira de vestir ou com os sapatos que calçam.''

Dos mil trabalhadores da Hippo Knitting, 538 são membros da IDUL e 479 são mulheres. Com mais de 50% de membros na fábrica, este sindicado prepara-se para assinar um acordo com a Fábrica, por leis laborais, enquanto mais membros se continuam a juntar. A Hippo Knitting não é a primeira fábrica onde IDUL se dedica a combater o assédio sexual. Em Nien Hsing, IDUL juntou-se a outros sindicatos e parceiros internacionais, lançando uma campanha para que se chegasse ao acordo de terminar com o assédio na fábrica. Christina Hajagos-Clausen, directora têxtil da IndustriALL afirma: ''Nós condenamos toda a violência sexual e de género na Hippo knitting, uma violação dos direitos humanos, sindicais, laborais e de dignidade das trabalhadoras. Suportamos IDUL e a sua corrida pelo fim dos abusos nas fábricas de roupa.''  O sector têxtil do Lesotho emprega 40,000 trabalhadores, 70% dos quais são mulheres. As fábricas produzem estas peças sob a chancela do e African Growth and Opportunity Act, que permite a exportação dutyfree do Lesotho para os EUA. 

 

No século passado, a venda de linho era tida em conta só depois de satisfeitas as exigências domésticas. ‘‘Adoro tecer, mas o linho é uma grande e dura viagem. É importante o saber fazer e o que as coisas custam mas, de alguma forma, estou grata por não ter de fazer todos os panos de que preciso!’’ Hoje, a açoriana Alice Aranha (Alice Albergaria Borges) vive em Arraiolos e faz novelos a partir de lã virgem, tintura e fiação. Só com fibras naturais, produz peças através da tecelagem manual, do crochet e da tinturaria manual. Sabe que o domínio das técnicas, aliado a uma licenciatura na Chelsea College of Arts, em Londres, foi essencial: ‘‘Sou tão especializada que acabo por ter procura. E tenho formação superior. Cresci nos Açores, comecei a tecer na António Arroio, fui para Lisboa aos 14 e foi super importante ir para Londres’’.  No Lugar Minas de Caveira, Grândola, as 7 irmãs (coordenadas por Lilian Enders Ribeiro, em parceria com Alice Aranha) cultivam cânhamo e transformam as suas fibras, afirmando como a autonomia da mulher se encontra historicamente ligada à criação têxtil. Perdem-se de vista os campos de cultivo trabalhados por este grupo itinerante e de múltiplos nomes que, às vezes, se junta para dar workshops na Cooperativa Agrícola, Quinta dos 7 Nomes em Sintra. Alice explica que o cânhamo produzido é muito pouco e muito irregular e que, nas suas criações, utilizam outros tecidos de origem vegetal.

 




https://vintageforacause.pt/

''Vintage for a Cause is circular economy brand with social commitment, focused on reusing textile waste through upcyling while empowering unemployed women over 50. Within a collaborative platform  framework the brand  creates limited editions of timeless designs, gathering, engaging and influencing different stakeholders throughout the value chain towards a more sustainable production and consumption.''

FASHION REVOLUTION: Vintage for a cause

SLOW FASHION: Truly Afro, de Luiana Abrantes

sábado, 19 de fevereiro de 2022



Um estudo feito pela ONU – Organização das Nações Unidas, em 2019, mostrou que a produção de roupas no mundo dobrou entre os anos de 2000 e 2014. Esse enorme aumento da produção não significa, necessariamente, que um número maior de pessoas está tendo acesso a roupas de melhor qualidade. O que se observa é um aumento do consumo de produtos ligados a moda pelas classes de maior poder aquisitivo nos países mais desenvolvidos, que é seguido por um aumento equivalente no descarte de peças consideradas fora de moda. 

Esse aumento no consumo gera diversos problemas ambientais, especialmente em países pobres e/ou em desenvolvimento que, por apresentar baixos custos de produção e de mão de obra, passaram a concentrar essas empresas nas últimas décadas. 

Nas duas postagens anteriores mostramos alguns desses problemas. No primeiro caso falamos das indústrias têxteis da região do rio Citarum, na Ilha de Java – indonésia. Citarum é considerado o rio mais poluído do mundo e tem como principais fontes de poluição os resíduos e efluentes gerados por indústrias de tecelagem e fiação. 

O outro caso foi o do rio Yamuna, um dos principais afluentes do Ganges, o maior, mais importante e mais sagrado rio da Índia. As margens do rio Yamuna concentra centenas de indústrias do ramo têxtil e também curtumes. Juntas, essas empresas despejam milhões de litros de efluentes com altos índices de contaminação por produtos químicos. Nos últimos dias, as águas do Yamuna foram tomadas por uma densa massa de espumas flutuantes, um sintoma da gravíssima contaminação das águas. 

Indústrias têxteis e curtumes são grandes consumidores de água. Estudos da ONU indicam que a produção de uma única calca jeans requer o uso de 7.500 litros de água. O tratamento de 1 tonelada de couro consome entre 20 e 80 m3 de água ao longo dos diversos processos. Além do alto consumo, esse grande volume de água retorna ao meio ambiente contaminado pelos produtos químicos usados nas cadeias de produção. 

Ainda segundo a ONU, a indústria têxtil é “responsável por 20% do total de desperdício de água globalmente”. Indústrias dos segmentos têxtil e de produção de calçados respondem por 8% das emissões mundiais de gases de Efeito Estufa. Outro dado dramático – essas indústrias geram um volume de resíduos equivalente a um caminhão de lixo a cada segundo. Esses resíduos vão para aterros (muitos deles clandestinos) ou são queimados. 

Exemplos dessas agressões ambientais existem por todos os cantos do mundo. O subcontinente indiano, especialmente a Índia e Bangladesh (o Paquistão se especializou em tecelagem), além da China, Malásia, Tailândia, Indonésia e Vietnã, entre outros, se mostraram altamente promissores, oferecendo farta mão de obra barata e leis trabalhistas altamente permissivas. Esses países foram transformados numa espécie de paraíso na terra para as confecções.   

Bangladesh é um caso extremo. O custo da mão de obra no país é menor do que na China, o que transformou Bangladesh em uma imensa rede de pequenas oficinas de corte e costura de roupas, de pequenas tecelagens e inúmeras tinturarias. O país é o segundo maior produtor mundial de têxteis do mundo – é comum encontrarmos roupas nas lojas das grifes mais sofisticadas do mundo com a inscrição “Made in Bangladesh”.   

Um grande exemplo brasileiro de descaso ambiental criado por essas indústrias é o rio Capibaribe, o maior do Estado de Pernambuco e que aparece em 7º lugar na lista dos rios mais poluídos do Brasil. Entre os municípios que mais contribuem para essa poluição está Toritama, cidade conhecida como a “capital nordestina do jeans”. São centenas de empresas têxteis que vão de pequenas oficinas de costura domésticas a grandes fábricas, além de dezenas de tinturarias. 

Outro exemplo é o rio dos Sinos, no Rio Grande do Sul, considerado o 4º rio mais poluído do Brasil. O Vale do Rio dos Sinos tem uma forte economia industrial formada por curtumes, indústrias químicas, metalúrgicas, produtoras de plásticos e de componentes para calçados – aliás, a região concentra o maior polo calçadista do Brasil e, na esteira, um grande número de curtumes e indústrias associadas. Grande parte dos efluentes dessas empresas é despejado no rio sem receber um tratamento adequado. 

Um vídeo chocante que está circulando pelas redes sociais e que ilustra o quanto a indústria da moda é danosa para o meio ambiente é a de imensas pilhas de roupas “velhas” amontoadas no Deserto do Atacama, no Norte do Chile. O país é o maior importador de roupas usadas da América Latina. As peças passam por um processo de seleção – as roupas em bom estado são colocadas para venda no mercado e as peças consideradas “ruins” são descartadas. 

De acordo com os cálculos do Governo local, o volume de roupas descartadas é da ordem de 59 mil toneladas a cada ano. Como os aterros sanitários da região só aceitam resíduos biodegradáveis as empresas descartam clandestinamente as peças inservíveis no árido Deserto do Atacama, localizado a cerca de 1800 km da Capital do país – Santiago. 

A porta de entrada dessas importações é o Porto de Iquique, onde funciona uma zona franca similar a que existe em Manaus. Os produtos vêm em grandes contêineres embarcados nos Estados Unidos, Canadá e países da Europa, onde existe uma verdadeira febre de consumo de produtos de moda. Muitas das grandes grifes internacionais chegam a lançar até 50 coleções por ano nesses países. 

Com esse ritmo de lançamentos, muitos dos consumidores usam as peças apenas uma ou duas vezes, descartando as roupas logo depois. Muitas empresas se especializaram na compra dessas peças usadas, que acabam sendo revendidas para outros países, onde roupas de marcas de grife famosas são muito valorizadas. 

As peças passam por um rigoroso processo de seleção, onde apenas as melhores serão separadas e encaminhadas para a venda nas lojas. Roupas manchadas, sujas ou com defeito são automaticamente encaminhadas para o descarte. De acordo com as regras da zona franca chilena, produtos importados com taxas reduzidas e subsídios não podem sair da região sem o pagamento de impostos. Logo, o caminho mais fácil para o descarte é o vizinho Deserto do Atacama. 

Como não seria diferente, esses depósitos clandestinos de roupas atraem muitos catadores, gente que garimpa roupas para usar ou mesmo para revender (vide imagem). Existem grandes rotas de contrabando desses produtos na direção de países como Bolívia, Peru e Paraguai.  

As peças inservíveis continuam abandonadas ao relento – o tempo médio para a decomposição de tecidos na natureza é de cerca de 200 anos. Como o Atacama é considerado o deserto mais árido do mundo, é provável que esse tempo venha a ser ainda maior. 

Em linguagem popular, trata-se de lixo do Primeiro Mundo que acabou arrumando um cantinho aqui no Terceiro Mundo. Triste sina essa nossa… 

SOS: “Made in Bangladesh”.